sábado, abril 30, 2011

boneca de trapos (o sonho)

frágil e de trapos. pela mão, uma e outra vez.
mais uma vez,
hoje ainda não, hoje ainda quero sonhar mais um pouco

sem razão, os sonhos mais perfeitos. pois a razão dilui a perfeição das coisas sonhadas.
a razão concentra a realidade do que vale a pena.
(mas os sonhos não valem a pena)

hoje ainda não. hoje preciso de sonhar mais um pouco.
como quem dorme a lógica das vidas e acorda mais leve.
mais leve por não saber que há quem não possa sonhar. quem escolha viver os trapos em toda uma vida.

apagou a luz mas continuou a sorrir. e no fim de todos os sonhos, adormeceu o corpo frágil.
apagou a luz mas continuou a viver. a história inútil do amor.





domingo, abril 10, 2011

plasmaferese de domingo à tarde

ou a constatação da mentira vendida pelo tempo de boca-em-boca. Daquelas mentiras que incham a alma com a certeza de que tudo vale a pena.

É que mesmo quando a alma é maior do que tudo, nem sempre é a conversar que a gente se entende. Se assim fosse, o silêncio não passava de uma inutilidade barata, destituida de sentido, manifestando a desvontade da compreensão e empatia.

Mas não é verdade, porque as palavras são apenas uma reduzida parcela da comunicação.
Há muita coisa que não se ouve e faz barulho. E não se chama silêncio.




domingo, fevereiro 27, 2011

óleo e carvão (II)

E essa vida que trazes, guerreira, junto ao peito. o ventre sagrado e as mãos fissuradas, a voz quente e sábia. transpiras, sofrida, a história que guardas para os teus, entre lágrimas e silêncios.  és lúcida e transparente. 

(Quero dizer-te,
- nesta eterna demanda, o teu sorriso terno, finito, não é apenas necessário. é condição essencial)

E esses contornos densos, estas palavras, pele espessa e delicada, coração cheio, inquieto. Desenho como quem ama

(preciso que o teu sorriso exista)



óleo e carvão (I)


e os traços no papel, as manchas de calor e timidez. pele sulcada e olhar suspenso, inquieto,  à procura de um horizonte seguro onde ancorar as certezas mais débeis e intermitentes
 - quero-te bem. 

 A vida ensina a sofrer mas não ensina a amar, ouvi-te dizer. quiseram vender-te livros com instruções erradas e por isso nunca soubeste em quem confiar. não sabes ainda. posso dizer-te que a lógica nem sempre tem razão? que podes confiar e saber depois
- quero-te bem.  

E o teu humor oscila com um ritmo próprio que nem tu sabes entender. nunca soubeste (aquilo que esqueceste de me ensinar). sei-te distante enquanto desenho o teu rosto em dias de sol. mas é o calor das palavras quem escreve. é o calor das histórias nas memórias que serão amanhã a dizer
(quero-te bem)  



sexta-feira, fevereiro 18, 2011

chávena de café (gramáticas)


eufemismo do cansaço, dos dias maiores do que o tempo que trazem dentro.
perífrase do prazer das coisas banais de um quotidiano qualquer.
metáfora do combate entre corpo e manhãs de hiperssónia. 

a personificar pacotes de existência,
(como quem dissolve os acasos de vidas áridas e reticentes do que é preciso)

bebo (contigo) o café finito de uma chávena gratuita.