quarta-feira, fevereiro 09, 2011

domingo, fevereiro 06, 2011

águas furtadas


como as palavras que roubamos à consciência dos dias menos fáceis. aqueles dias cinzentos, nos quais não apetece existir como se vivêssemos. emprestamos tempo ao que é eterno e esperamos que, de preferência, nos devolvam em felicidade já amanhã. 
Amanhã, tenho a certeza, vamos sempre querer ser felizes. 

E no que diz respeito à felicidade, temos sempre muito a agradecer àqueles que não nos fazem as vontades de ânimo leve. aqueles seres insensíveis que subtraem o prazer imediato à capacidade de criar quando não existe mais nada para acreditar ou esperar. são estes os mestres a quem mais tarde vamos beber a paixão pela vida e o ódio pela anorexia de existir. pela emese de ir passando pelas noites e pelos dias.

Ou as águas furtadas à mágoa dos pretéritos imperfeitos. porque nunca é fácil abrir o sotão das coisas que fizemos em vão, que sofremos em vão, que fizemos sofrer sem sentir para quê. dos sentidos inacabados. dos sonhos impossíveis. É bem menos difícil partilhar a varanda aberta ao sol dos dias prováveis ou passados perfeitos. 

Mas no fim de tudo subtraido à solidão da consciência, percebemos que não pode haver mais chão para cair. não pode haver mais sonhos não possíveis. não podemos não ser quem somos. não podemos não ser quem queremos ser. 

As águas furtadas à felicidade são sempre finitas. 




segunda-feira, janeiro 24, 2011

inspiração e disciplina


mais do que uma dádiva para alguns ou um bem essencial para outros, a inspiração impõe-se como uma ferramenta de trabalho essencial e acessível a todos. 

porque se torna difícil dar o nosso melhor quando não inspiramos a essência das coisas que fazemos. aspirar mecanismos e conceitos às vezes até é preciso, mas não é suficiente. não basta que a respiração de um ser inteligente se limite à utilidade nata ou adquirida daquilo que surge ou acontece.

aparentemente incompatíveis, inspiração e disciplina complementam-se de uma forma fascinante e eficaz. se por um lado a disciplina oferece método à inspiração, diminuindo a entropia natural que lhe está associada. por outro lado a inspiração alimenta e substancia a disciplina, impedindo que esta se torne desgastante. 

até porque disciplinar é bem mais do que dividir os dias com régua e esquadro.



domingo, janeiro 23, 2011

boneca de trapos

Como quem conduz pela mão os sonhos desenhados com a lã de um novelo inventado.  frágil e para sempre, sorri sem ser preciso. porque não são precisas razões para sorrir quando as mãos guiam a inutilidade de ser. Apenas ser. 

E do outro lado da vida, outros carregam com a dureza de quem nunca aprendeu a amar, a velhice dos que se veêm trapos num tempo que já não é o seu. a lã torna-se pesada e incapaz de sulcar ânimo nas rugas lavadas de utilidades nulas. 

Paradoxo este, o de ser boneca e ser de trapo. ter sonhos com prazo de validade. emprestar a alma ao vazio  para dividir o oxigénio apenas com a solidão. E morrer asfixiado com a própria expiração dos dias. 



quinta-feira, janeiro 13, 2011

vontade


de ser mais simples do que a vida.
maior do que qualquer escotoma ou penumbra.
de chorar porque é preciso. sobreviver,
e gritar para amortecer os estilhaços internos.


em vez de desistir,
ser feliz sem precisar de pedir desculpas por isso.